UFF comprova ineficácia de equipamento de proteção de dentistas

A constatação de que o Brasil apresenta mais de 80 mil profissionais de saúde infectados pelo novo coronavírus e, a maioria, usa nos hospitais jalecos feitos de tecido não tecido (TNT) acendeu o alerta na cirurgiã-dentista e professora titular de Periodontia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Eliane dos Santos Barboza.

Eliane resolveu fazer uma pesquisa para ver se os equipamentos de proteção individual (EPIs) disponíveis no mercado estavam de fato protegendo esses trabalhadores. A professora se juntou a outros dois professores e a alunos de pós-graduação e mestrado para testar a eficácia dos equipamentos de proteção individual (EPIs) de TNT para os dentistas. A conclusão é que não foi comprovada eficácia nos três tipos de gramaturas usados (40 gramas por metro quadrado g/m², 60g/m² e 80g/m²).

Simulação

“Nós simulamos, com manequim, uma pessoa sentada em uma cadeira odontológica e um profissional odontólogo fazendo os procedimentos de aerossol em uma posição de 12 horas. Na posição de 12 horas, a gente fica por detrás do paciente e recebe muito aerossol”. Essa simulação foi feita à média dos cinco profissionais, para dar uma noção de espaço, altura do manequim, tudo dentro dos princípios de ergonomia.

Uma superfície lisa simulou o corpo do profissional. A água foi tingida e Eliane acionou a caneta de alta rotação em posições padronizadas. O aerossol foi usado como se estivesse sendo feito um procedimento odontológico normal durante cinco minutos, “que é um tempo mínimo”. Conforme explicou, para fazer uma raspagem geral na boca de um paciente com ultrassom, que também gera aerossol, leva-se no mínimo, meia hora. Para fazer o procedimento de uma coroa leva-se mais de cinco minutos.

“Nós fizemos um tempo mínimo de trabalho e chegamos à conclusão que os três grupos de gramatura, tanto na sua forma simples como dobrada, todos passavam aerossol.

TNT impermeável

A pesquisa mostrou que o TNT mais simples passa o aerossol, tanto na forma simples como na dobrada. O que não passou foi o TNT de gramatura 80 dobrado. A questão é se passaria por mais de cinco minutos, porque ele não é impermeável, disse a professora da UFF.

A conclusão é que novas tecnologias têm de ser desenvolvidas ou que se busque usar TNT impermeável.

A professora da UFF explicou que só foi possível se enxergar o aerossol nos jalecos utilizados na primeira etapa da pesquisa devido ao uso dos corantes, que provocaram manchas nos equipamentos feitos com nãotecidos. “Quando a gente cora, visualiza esse aerossol todo, o que não faz com gotículas transparentes da água. Então, você sai dali, tira o seu jaleco e pensa que está protegido. Não está. Passou e foi para sua roupa”. O certo é o dentista usar um 'scrub' (uniforme) e trocá-lo a cada paciente. Segundo Eliane, será preciso mudar todos esses procedimentos nas clínicas dentárias e nas clínicas das faculdades. “A periodontia e a implantodontia já tinham um entendimento disso porque trabalham muito com sangue e com aerossol de ultrassom na limpeza de boca. O que ocorre é que agora todos estão em risco, porque na saliva está tudo contaminado e não se sabe se o paciente está com covid e é assintomático. Tem que ter proteção pessoal para fazer o procedimento”.

Segurança

Eliane quer orientar os colegas e a comunidade científica mundial sobre o que podem comprar para usar com segurança. Enquanto isso não ocorre, ela recomendou que os profissionais de odontologia usem uma capa plástica por baixo do jaleco descartável. “Aí não passa nada, nenhum microorganismo”.

A primeira parte da pesquisa já foi submetida ao jornal científico Frontier Dental Medicine que, por ser gratuito, vai possibilitar muitos acessos ao trabalho. “A minha preocupação neste momento é que muitas pessoas possam acessar esse trabalho, sabendo o que está acontecendo”.

O ideal é que usem um equipamento que não deixe passar o aerossol contaminado, além da máscara tipo 'face shield' (protetor facial feito de acetato). A trama do TNT é muito irregular e deixa passar os microorganismos, insistiu. “Por isso é chamado tecido não tecido”, observou. Se não for possível utilizar um tecido impermeável durante os procedimentos com aerossóis, reforçou que uma roupa de plástico associada a um EPI descartável deve ser usada, seguindo recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS).

A dentista Marisa Alves Costa já se antecipou, segundo informou à Agência Brasil. Ela faz uso constante de jaleco impermeável descartável de gramatura 40, 50 ou 60, no seu consultório odontológico, no Rio de Janeiro.

Fonte: Agência Brasil